O QUINTAL MÁGICO

O QUINTAL MÁGICO

Um texto de J.M.VICTOR

 

Na década de sessenta, o quintal do casarão da minha avó era um dos mais importantes e mágicos da minha infância. Tinha uma densa floresta povoada de fadas, duendes, gnomos, lagartixas, sapos e frutas exóticas, como a romã que servia para os males da garganta. Na parte da medicina natura, tinha Erva-cidreira, hortelã e Boldo.  Com a pimenta colhida, o meu tio Chico preparava o molho para o semestre todo. Alcançar o mamão naquelas alturas não era serviço para os netos. Tinha uma tosca escada de madeira para esse trabalho. O limoeiro foi tombado pelo meu tio afim, no início da década de setenta. Era intocável. E o fruto tinha um sabor inigualável.

O zoológico particular da minha avó era formado de peru, galinha de capoeira e da Angola, passarinhos e um velho cágado do tempo do meu avô, que tinha morrido no início da década de cinquenta, parecia que iria sepultar todos nos. Não sei da memória dos cágados, mas se falasse contaria histórias seculares da família. O gato angorá era o rei da floresta e o único que entrava casa adentro com aquele andar presunçoso de dono do mundo. Respeitava muito esse gato por causa da minha tia Dadá, mas não tolerava quando ele passava por mim esfregando o dorso peludo na minha canela pelada.

Fui crescendo e o quintal diminuindo. Recentemente, fazendo uma reforma no casarão, ainda encontrei segredos desconhecidos do meu tempo de infância: uma cisterna com água transparente, que faz tempo que usaram. Só então entendi porque o limão era frondoso e cheio de frutos. As raízes tinham alcançado a cisterna e estavam parecendo plantas aquáticas naquele grande volume de água.

O quintal era grande e misterioso. Hoje é um pequenino quintal, aparentemente sem segredos, de um casarão da antiga praça do comércio. O casarão está na família desde a década de trinta, quando o meu avô se instalou com um comércio de couros e tanantes, na Morada do Sol. Tenho certeza que ali tem uma botija enterrada. Como vou passar uma temporada no casarão até o final da reforma da minha casa, espero sonhar com o local exato da botija. Não a botija de ouro que todos esperam, mas a botija das lembranças eternas como aquele dia em que o meu tio Chico partiu para trabalhar nas obras da rodovia transamazônica, das despedidas tristes como os inúmeros velórios na sala grande. Mas também dos momentos alegres no alpendre do quintal, onde a família se reunia para conversar. Encontros inusitados e brincadeiras intermináveis, e do encanto do mundo perdido naquela densa floresta. Ao quebrar o pote, depois do ritual profano desses momentos, espero encontrar bolas de gude, pião de madeira, varinha de ferro para o jogo de triângulo, apitos e figurinhas do sabonete eucalol.

Liev Tolstoi dizia que “Para ser universal basta cantar o seu quintal.” Adoro essa metáfora do escritor da Yasnaya Polyana. Foi pensando assim, que o meu quintal é maior que a casa que moro. Mas jamais será tão grande quanto aquele quintal da minha infância em que ainda encontro pequenos vestígios daquele tempo encantado.

Quando cheguei de Olinda, para morar definitivamente em Patos, a minha avó me chamou e entregou a planta do loteamento da família que hoje é o bairro da maternidade, me disse:

– Escolha um terreno a seu gosto e construa a sua casa.

Foi um tempo bom e alegre aquele da construção da casa. Vendi tudo que tinha e, depois de liso, para entrar definitivamente na morada, tive que pintar, eu mesmo, durante minhas férias, a parte externa da casa. Isabela, ainda pequena, me acompanhava com uma moringa de água gelada debaixo do sol causticante das Espinharas.

O nosso quintal tornou-se realidade e muito tempo depois escrevi “O Quintal Mágico”:

Márcia diz que é um lugar encantado…

Foi lá que Isabella noivou e Victor jogou bola,

Igor também deu os primeiros passos por ali…

A noite sempre sopra o Aracati.

Hoje amanheceu sorridente, o nosso quintal,

A chuva da noite anterior foi uma benção…

Quando os passarinhos começaram a cantar

Fui ver as graviolas maduras

E a cor da casca da romã

Naquele brilho intenso da manhã.

Lá tem frutas para suco:

Tem acerola

Tem pitanga

Tem amora

Tem limão

Tem goiaba

E coco para fazer cocada.

Também tem hortelã para chá.

Um jabuti se perdeu por lá

Ainda deve estar caminhando…

Ninguém nunca mais o encontrou.

Também tem flores

Que na estação certa

Colocamos junto ao retrato de Igor.

É um local para comemorar

O Natal em família…

O nosso quintal reúne pessoas

Para rezar e brincar

Virou lugar sagrado

Das Mães da Pietá.

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