O Rio dos Heráclitos

O Rio dos Heráclitos

Uma vez escrevi aqui que o rio Jaguaribe – esse que dá nome ao bairro em que nasci –  é muito mais belo do que o Tejo do Fernando Pessoa que não conheço, e que se conhecesse continuaria achando o meu Jaguaribe mais belo do que ele. Cada poeta tem o rio que merece. O meu não é por ser poeta. Não sou. Mas por vê-lo somente poesia em águas cristalinas.

Leio em um dos nossos jornais provincianos que estão querendo trazer o Jaguaribe de volta. Mentira.Um rio, assim como o homem, a cada segundo deixa de ser o mesmo rio. Esse não é mais o meu rio Jaguaribe. O rio de poesia que corria nas veias do menino-jaguaribe.

Todo o rio, indistintamente, segue sempre para frente. E assim também aconteceu com o meu rio. Hoje nada mais dele se encontra nesse leito. Ali ele não dorme mais. Acordou para o mar.

Os meus tempos de criança passaram com esse rio. Navegaram. Foram para além mar. Não conheço esse rio, Não matei nele a minha sede de viver. O aguaribe, o meu rio, nunca será o mesmo. O homem coerente com o rio de sua aldeia há muito que deixou de ser o mesmo.

Heráclito de Almeida, o meu pai, sempre soube disso. Deu-me o remo,   barco e rede. E nesse rio me ensinou a pescar. Deu-me as pedras.  O outro Heráclito, porém,esse  de Éfeso, matou a charada: passei com esse rio. Passamos todos no rio da vida.

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2 comentários

  1. Sucinto e belo texto. Mesclado de poesia e nostalgia sublimar, que só aqueles que conhecem teu estilo têm o prazer de absorvê-lo!

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