VENDEDOR DE SAÚDE

Todo domingo ele está na feira livre do bairro de Oitizeiro. Tudo igual. O mesmo discurso. As mesmas raízes mágicas. Ninguém nunca voltou para reclamar. Se voltar  é somente para dizer que o “remédio” fez efeito.

Alguns olham desconfiados para o “”curador”. Eles sabem. Um “tapia” – sujeito contratado para servir de exemplo – quase sempre aproveita a multidão que se reúne em redor dele, isto é, do “curador”, para fazer a “propaganda”. Acho legal essa forma “desonesta” de vender saúde.

Passei por lá domingo passado. A mesma coisa.  Um ano sai e outro entra, mas ele fica no meio. As suas raízes curam até “queda de rede”. Garante que um  sujeito com problema sério de “prosta” (ele quer dizer próstata) foi curado em poucos dias. Acabou aquele mijadeira noturna que não o deixava dormir.

  Ele acha que toda “mijadeira” é sinônimo de “prosta doente”. Nem considera o fato do sujeito ter enchido a pança de cerveja o dia todo. Tudo assisto.  Tudo escuto. Ele fala sem pontuação. Lembra um irmão que tenho. Esse que há muito aboliu a pontuação nas suas conversas.

 Um dia – mostra um vidro transparente com uma mistura de raízes que o deixa escuro – esse “xarope” – chamou-o assim –  fez uma paralitica das pernas correr mais que um vencedor da São Silvestre. Vocês podem acreditar. Ela chegou aqui trazida numa cadeira de rodas. Pausa. Mas tem uma coisa – ressaltou -, o remédio sozinho não resolve nenhum problema. É preciso fé! Muita fé! Sem ela não existe remédio no mundo que faça efeito!

Beber com fé! Sorrio. A fé é quem cura! O remédio é apenas um paliativo. Ora, se o remédio não cura nada e somente a fé cura, para que serve o seu remédio?

Ele, sem parar sua “cachoeira de palavras”, responde que a fé precisa do remédio; sem ele a fé não cura.  Sem ela é um simples e inofensivo “remédio”  

Vou me embora.  Não adiantou o seu apelo. Não comprei o remédio. Pausa. E agora? Será que a nossa fé sem o remédio dele vai curar os males da humanidade?

 A perguntar fica parada no ar. Um quase grito. E, para essa, mesmo com a fé, o seu remédio não cura.

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