Pelé poderia ter pendurado a língua naquele dia

Pelé poderia ter pendurado a língua naquele dia

Lembro perfeitamente o dia . Era um 14 de novembro de 1969.  A hora ? Nenhuma importância. 

Não fazia muito tempo que o menino-jaguaribe tinha deixado os cueiros. O meu pai Compadre Heráclito tinha uma espécie de “serviço prestado” à nossa Federação Paraibana de Futebol. Tudo era mais fácil. 

Embora “fiscal” dava aquela de porteiro que – nos dias de jogo – abria os braços e os portões do estádio Jose Américo de Almeida para crianças e amigos mais chegados. Tudo, porém, dentro do permitido “por ele”.

Tem até aquela história que poucos acreditam, contada pela Folha de São Paulo, de que a “ Paraíba viu o verdadeiro milésimo; um erro de contagem consagrou o Maracanã”. E segue: 

- “o milésimo gol de Pelé não foi marcado no Rio de Janeiro,  não aconteceu no Dia da Bandeira e não teve como “vítima” o goleiro argentino Andrada.

- O milésimo gol de Pelé  foi anotado em João Pessoa, ocorreu no dia 14 de novembro de 1969, cinco dias antes do, injustamente eternizado, jogo do Maracanã. E seu coadjuvante foi o goleiro brasileiro Lula, do Botafogo da Paraíba”.

A citação foi feita pelo jornal Folha de São Paulo , em sua edição do dia 14 de maio de 1995, destacando no título da matéria de página inteira, que a “Paraíba viu o verdadeiro milésimo gol; erro de contagem consagrou o Maracanã”.

Mas prefiro as minhas memórias. E, sendo assim, meto os dedos nos teclados e sigo em frente.

No velho e histórico estádio José Américo de Almeida, vi o Pelé pela primeira e única a vez. Mas e daí ? Depois dessa vez primeira não precisava vê-lo mais ao vivo nem  em cores ou em preto e branco. E nunca mais o vi.

Para este MB Pelé  errou o chute. Naquele dia em que pendurou as chuteiras bem que Pelé deveria também  ter pendurado a língua. E esquecer disso nunca hei de. Ficaria na história como um “eterno” poeta. E o “baixinho” não daria aquela de  bom frasista repetindo por aí que “calado ele é um poeta”.

Um poeta do silêncio?

Nesse dia, levado pelo meu pai para ver os “craques” de perto,  Pelé estava no vestiário do time do Santos ao lado de outros craques a ele subordinados. Isso mesmo: subordinados. Pois todos mal levantavam os olhos para aquele “rei” de mentira. Sim, mas havia uma exceção. 

Eu ouvi quando Clodoaldo, um gentleman e excelente volante santista, o chamou pelo nome de batismo. Nada de Pelé – “Edson”. E ele, meio constrangido,  percebi, atendeu ao “menino”.

O time do Santos era um timaço!

Hoje,  décadas depois, eu que pouco ou nenhuma importância dava ao futebol, cresci e aprendi o que vem a ser um “timaço”. Um exemplo atual? O time do Flamengo na era Jesus. Ah,  mas não se enganem não. Este MB foi um craque  nesse campo.  Tudo bem: quase.  Tá bom?

Hoje, porém, mesmo com o melhor dos plantéis –  figurado pode ser um “grupo de atletas”, na acepção real da palavra plantel é “lote de animais de boa raça,”. –  do futebol verde-amarelo, pouco ele tem de Jesus e do futebol que com Jesus apresentou.

Mas não  posso negar que nunca gostei do Edson, o dono do Pelé. Também negar não posso que não suporto essa idiotice do Edson  falar no Pelé como se esse fosse outra pessoa,  uma segunda ou terceira. Um Deus ou algo parecido:

 – “As pessoas tentam encontrar um novo Pelé, mas isso não pode ser”.

Um chato ou imbecil?  Pergunto-me e a resposta chega rápida aos ouvidos: ambos. Pelé: o melhor de todas os jogadores.  Edson? Um Cafuringa.

Saio das lembranças e volto à minha ilha cercada de livros e discos e filmes por todos os lados.  Até esqueço que o Corona está de olhos aboticados à espreita de um vacilo nosso. 

Não brinquem! 

É fácil dizer para os outros, esses que para mim não são o inferno, que ele descansou, quando ainda nem cansado estava. Mais fácil ainda é dizer “a vida continua! ”.

Estão lembrados?  Isso mesmo: pimenta nos olhos dos outros é o mais doce dos sucos de graviola descendo pela garganta sedenta.

Nada de colírio. Nada de refresco. Agora é suco!

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