Quando sonho de aposentado vira pesadelo

Quando sonho de aposentado vira pesadelo

Aposentadoria. Todos por aqui esperam. Sonham. Falam que estão no tempo. E podem voltar à família. Queriam. Afinal, estão com mais de 70 anos. Por que continuam trabalhando? Ora, somente com o dinheiro da aposentadoria eles morreriam com fome. Exageram.

Uns tem como sobreviver independentes dessa aposentaria que dá muito mal para manter a cadelinha de Ana Maria Braga. Um salário pra cachorro? Não. Também exagero. O tempo passa. Eles, os mais de setenta, chegam à empresa com olhares distantes.

Eles são/estão Tristes. Sonhando talvez com o retorno a casa amada. Pátria amada. Esposa. Netos. Filhos. E o papo com os vizinhos? Nenhum. São uns desconhecidos. Moram há 30, 40,50 anos juntos, mas são eternos desconhecidos. Talvez com a aposentadoria eles se conheçam.

Sinto os olhares perdidos desses quando a empresa chegam. Se pudessem, confessam, caminhariam toda a manha sob o sol, beira do mar, sem hora de voltar pra casa. Marcar ponto? Não. Todos apenas com num único ponto: a beira-mar.

Mas nem todos, apesar do “Pé-de-meia” que conseguiram fazer em trinta, quarenta e até cinquenta anos de trabalho, não tem esse privilégio. Em casa com filhos e netos, tomando o seu uisquezinho ou a sua – deles – cerveja fria como os olhos de um bandido. Nada de bandidos. São heróis. Esses são heróis para os seus e nada devem aqueles que heróis nãos lhes consideram.

O andar é lento. Noto. Notam. Sobem as escadas com um esforço de alpinista a poucos metros do cume da montanha que sonhavam escalar. Cansados. O cansaço não se ver apenas no andar de quem parece carregar chumbo amarrados nas pernas.

Os gestos são lentos. Os olhares vazios de sonhos. Descansar. Eles, olhos e corpo, pedem descanso. Mas, infelizmente, dizem e vivem a repetir que esse sonho ainda está longe. Um dia, quem sabe, esses que esperam que estejam próximo de seus setenta anos e muito longe dos oitenta, onde muitos sabem que não chegarão, esse sonho posso ser realizado.

Desejam voltar para os seus. Encontrar consigo e com eles. Mas a aposentadoria sonhada, um salário que não os obrigue a morrer de tédio, fome ou droga, a cachaça para muitos, não permite. Assim seja. Vão caminhando até o dia em que as pernas pedirem para parar. Ai, eles param, dão adeus aos seus e deixam que elas se aposentem para sempre.

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