QUEM GOSTA DE LER NÃO MORRE SÓ

o dia amanhece para a caminhada. pede. e não nos fizemos de rogado. pausa. era assim que a minha dizia nas vezes em que a gratidão pedia passagem: agradeça. não se faça de rogado. só outra pausa.

nunca achei que essa expressão significasse outra coisa que não ““não se faça de desentendido”. isso mesmo. mas, para a minha satisfação – sempre curioso e disposto a perguntar para alimentar essa curiosidiade – , existem outros significados à expressão da minha mãe.

tenho alguns exemplos: gostar que lhe peçam com muito empenho; fazer-se caro; fingir não estar disposto a fazer algo; demorar a atender a um pedido; não ceder a um pedido senão depois de muito instado, para valorizar a seu favor; gostar que lhe peçam com muito empenho. tudo está no dr. google, o freud dos tempos modernos, esse que tudo explica.

 mas, como eu dizia enquanto caminhava, lembrei mais uma vez de dizer e escrever que o dia pedia e nós atendemos ao seu pedido. caminhamos. se cantamos enquanto caminhávamos? nem seguimos a canção. 

eis que de repente uma observação sem maiores pretensões surgiu no caminho do nosso silêncio:

- vamos aparar a barba… está parecendo o papai (talvez tenha sido “o vovô) smurf.

muitos sabem quem é o papai smurf.  todos não. assim seria como acreditar que da mesma forma todos sabem quem é louise glück. não sabem.

segundo a história lá deles – dos smurf – papai smurf tem uns 100 anos. por aí. mesmo assim é somente é um velhinho somente energia. não tenho essa idade ainda nem a energia do papai smurf. acredito. também não empatamos: eu tenho mais energia e ele menos ou mais ou menos temos a mesma energia. –

- ah, gosto da barba grande! ela me dá a sensação de liberdade!

ato continuo, não sei mesmo dizer o porquê desse ato, lembrei que tiradentes não tinha barba nem cabelos compridos, naquele fatídico dia em que deram muita corda a ele:

- então quer dizer que desejas também morrer enforcado?

- não. nem sufocado!

a resposta veio rápida como um chute do infalível bruce lee nos seus melhores dias. a caminhada seguia e nós seguíamos com ela. nela.

 o silêncio marcava os nossos passos. na pracinha o silêncio parece um estranho para muitos.  as pessoas passam em busca de um lugar num futuro próximo. silenciosas. o silêncio, porém, não é cumplice nesse momento.  um silêncio assim precisa das palavras. não serve.

no muro ao lado, olho de soslaio (eu gosto desse olhar), e leio escrito como o caetano veloso pediu um dia para ser lido na sua camisa. não li “baby, baby, i love you”. o escrito era outro. mais poético. mais bonito. estava – continua – escrito em letras bem desenhadas: “QUEM GOSTA DE LER NÃO MORRE SÓ“.FB_IMG_1604220749343

 não disse nada. pensei apenas: dá uma bela letra de música. o meu irmão-parceiro gil de rosa pode esperar. quem gosta de ler não morre só.  tudo e nada ver com o estado de espírito desse mb. só ninguém nunca será. estar só ainda pode. tudo bem. mas um estar passageiro.

não sou uma ilha. ninguém.  a única ilha que conheço é esta onde agora espalho pedaços da minha caminhada. uma ilha cercada de livros e discos e filmes por todos os lados.  a caminhada não terminou. voltarei a ela. ou melhor: voltarei para falar sobre a chegada. ótima!  tudo depois de uma partida em que o objetivo era apenas caminhar. 

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