Ratinho

Itabaiana conhece Ratinho?

Ele nasceu Severino Rangel de Carvalho, num período em que a Monarquia ainda emanava seus odores de absolutismo sobre o Brasil e a República engatinhava tentando acertar o caminho político do futuro. Ratinho seria seu nome artístico, ligado a dois saxofones – um soprano e um contralto – que só os abandonou em dois mo- mentos de sua vida: ao serem roubados e quando morreu. Tornou-se, então, o maior músico do Brasil nesse instrumento, ao gravar “Saxofone, Por Que Choras?”, que literalmente provocou lá- grimas na plateia do Cine Palais (Rio), na década de 1930. E despertou comentários de admiradores e invejosos.
Este gênio paraibano da música, gravou mais de 200 discos no Brasil.
Um comentário do contra surgiu contra Ratinho (segundo o Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro – MIS-RJ), no próprio Cine Palais. Um despeitado falou que Ratinho sabia tocar, mas não estudara música. Outro, que era bom conhecedor do artista e de sua inteligência, respondeu: “Um homem que toca maravilhosamente bem como este não precisa estudar partituras”.
O Itabaianense Ratinho, nasceu em 13 de abril de 1896, quando, no Brasil, o presidente era Prudente de Morais e, na Paraíba, governava Álvaro Machado. A União anunciava, na Manchete do dia seguinte uma instrução de como os eleitores deveriam votar, para presidente e vice-presidente do Estado, nas eleições de 22 de abril daquele ano. Sem querer, nem adivinhar, Ratinho não saberia que, hoje, 48 anos após a sua morte, o jornal que foi seu contemporâneo (A União tinha quatro anos de fundado, quando Ratinho nasceu), lhe faria uma homenagem especial.
Ratinho conquistava a todos. Tinha uma alegria permanente. Chegou a chorar como criança desconsolada, na vez em que um gordo esmagou seu saxofone contralto ao sentar numa cadeira de teatro sem olhar. Foi apresentado à Sinhá Vana, sua única mulher, depois que o Crou-pier Pires, do Clube dos Caçadores (RJ), pediu para ela (a pianista da casa), executar uma valsa da moda. Depois da tocata, Ratinho se aproximou, elogiou a artista e, com o tempo, o amor foi se instalando entre os dois.
Na véspera de sua morte assistiu à tele- visão, parte da noite de mãos dadas com dona Vana. Em 8 de setembro de 1972, foi com Zélia, sobrinha de Vana, fazer um check-up no Hospital Duque de Caxias. Morreu no momento em que o médico verificava-lhe a pressão: fechou para sempre os olhos, de onde lhe caiam lágrimas. À Sinhá Vana restou uma terna lembrança, a do dia em que Ratinho foi-lhe apresentado, despertando um comentário entre amigas: Quem é esse lindo índio de olhos verdes?
Depois que o caixão foi baixado numa sepultura do corte oito, no Cemitério de Nossa Senhora do Belém, em Caxias (RJ), a trajetória artística de um autêntico gênio do saxofone começou a ser traçada pelo MIS, através de Sonia Maria Braucks Calazans Rodrigues, com apoio da Funarte/MEC/ Secretaria da Cultura.
Em Itabaiana, ainda menino, Ratinho fugia de casa, para ver a banda passar. Seus mestres foram Mendonça e Flor. Este último dava seguidas reguadas nas mãos de Ratinho, quando ele errava as teclas do saxofone. Em 1914 foi para o Recife. Um ano depois, já tocava oboé na Orquestra Sinfônica local, sob a regência do maestro Euclides Figueiredo. E também fazia parte da orquestra de Nelson Figueiredo, estrela do Cine Teatro Moderno. Em 1919, conheceu Jararaca. Foram parceiros em músicas e cenas humorísticas de sucesso no rádio, Tv e teatro, por toda a vida. Sua sobrinha, Zélia Silva Cavalcante, foi herdeira dos dois saxofones famosos do tio: o contralto, de no 20352 e o sopra e o soprano com a numeração 237425, oferecidas pela rádio nacional, onde o artista trabalhou até morrer. Depoimentos de gigantes da MPB solidificaram a fama de ratinho como exímio saxofonista.
Abel Ferreira – “Ratinho foi habilíssimo no saxofone soprano, embora executasse bem o saxofone alto. Conseguia a perfeição nas passagens de agilidade e no stoccato. era um artista inato, fortemente liberto da partitura musica. A música “Saxofone por que Choras”?, é uma prova de como era um maravilhoso compositor.
Jotaefegê – “Conheci poucos instrumentistas como ele, que executava o saxofone com grande maestria”.
Paulo Moura – “Uma vez toquei choro com Ratinho e, quando terminamos, fiquei admirado quando ele disse e provou que o choro era de sua autoria”. Não sei se algum saxofonista foi influenciado por Ratinho. Infelizmente, criaram um conceito de que a música que ele executava era “quadrada”. “Isto contribuiu para que o músico fizesse uma submúsica, tipo importação, enquanto a grande força da MPB é a que vem do Nordeste”.
Ricardo Cravo Albim – “Musicalmente, sem dúvida, Ratinho foi um dos maiores instrumentistas que o Brasil já conheceu. “Ele tinha o dom virtuosíssimo de emitir uma nota durante tempo alongado, a fim de exibir o fôlego”, o que, para demonstrar sua habilidade com o saxofone, era desnecessário”.
Norival Guimarães, um violonista famoso, que acompanhou por muito tempo a Troupe teatral de Jararaca e Ratinho, dizia que “Ratinho possuía o dom da música tão aprimorado e técnico, que todo músico da Rádio Nacional e alhures, levantavam-se para vê-lo tocar”.
Do alto de minha simplicidade, como pesquisador e advogado, faço uma pergunta: Itabaiana conhece Ratinho? Afirmo que não, pois, hoje, ao que parece, nenhuma homenagem envolve o nome desse artista, nesta cidade. O berço natal de Ratinho situa-se a 76,8 Km da capital, onde morou Sivuca, outro filho ilustre da terra, internacionalmente conhecido. *Advogado e pesquisador.

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