Sob o Trópico do Câncer

Sob o Trópico do Câncer

Eu Plural: lembro-me bem. O ano era o de 1970, o mês de Maio. Dia 13.   Leitor contumaz – nunca “conto menos” – de O Pasquim, especialmente de Fausto Wolff, com que troquei alguns imeios e bati bons papos, sempre ouvindo mais e falando menos.  Nesse dia, assim mais que de repente, me deparei com essa obra-prima (essa é mesma) do Poetinha, na verdade um poetaço, Vinicius de Moraes. É como costumo ainda hoje dizer: li de uma só tirada! Que beleza! Nesse dia, o Fausto Wolff soube, pois lhe confidenciei, até dele, isto é, do Fausto, esqueci. Uma porrada! Hoje, no Dia Nacional de Combate ao Câncer, lutando contra essa “Monstruosa Tarântula” que atacou uma pessoa minha muito querida, queridíssima, esse belo poema me veio à cabeça. Pausa. Á alma. Ao coração. Isso mesmo o que vocês sentiram: hoje estou meio pra baixo? Nada disso: pra baixo e meio!

 Mas vale a pena, todo dia, ler um poema assim. – 1berto de almeida.

SOB O TRÓPICO DE CÂNCER

Vinicius de Moraes

ISai, Câncer
Desaparece, parte, sai do mundo
Volta à galáxia onde fermentam
Os íncubos da vida, de que és
A forma inversa. Vai, foge do mundo
Monstruosa tarântula, hediondo
Caranguejo incolor, fétida anêmona
Carnívora! Sai, Câncer.
Furbo anão de unhas sujas e roídas
Monstrengo sub-reptício, glabro homúnculo
Que empestas as brancas madrugadas
Com teu suave mau cheiro de necrose
Enquanto largas sob as portas
Teus sebentos volantes genocidas
Sai, get out, va-t-en, henaus
Tu e tua capa de matéria plástica
Tu e tuas galochas
Tu e tua gravata carcomida
E torna, abjeto, ao Trópico
Cujo nome roubaste. Deixa os homens em sossego
Odioso mascate; fecha o zíper
De tua gorda pasta que amontoa
Caranguejos, baratas, sapos, lesmas
Movendo-se em seu visgo, em meio a amostras
De óleo, graxas, corantes, germicidas,
Sai, Câncer
Fecha a tenaz e diz adeus à Terra
Em saudação fascista; galga, aranha,
Contra o teu próprio fio
E vai morrer de tua própria síntese
Na poeira atômica que se acumula na cúpula do mundo.
Adeus
Grumo louco, multiplicador incalculável, tu
De quem nenhum Cérebro Eletrônico poderá jamais seguir a matemática.
Parte, poneta ahuera, andate via
Glauco espectro, gosmento camelô
Da morte anterior à eternidade.
Não és mais forte do que o homem – rua!
Grasso e gomalinado camelô, que prescreves
A dívida humana sem aviso prévio, ignóbil
Meirinho, Câncer, vil tristeza…
Amada, fecha a porta, corta os fios,
Não preste nunca ouvidos ao que o mercador contar!

II

Cordis sinistra
– Ora pro nobis
Tabis dorsalis
– Ora pro nobis
Marasmus phthisis
– Ora pro nobis
Delirium tremens
– Ora pro nobis
Fluxus cruentum
– Ora pro nobis
Apoplexia parva
– Ora pro nobis
Lues venérea
– Ora pro nobis
Entesia tetanus
– Ora pro nobis
Saltus viti
– Ora pro nobis
Astralis sideratus
– Ora pro nobis
Morbus attonitus
– Ora pro nobis
Mama universalis
– Ora pro nobis
Cholera morbus
– Ora pro nobis
Vomitus cruentus
– Ora pro nobis
Empresma carditis
– Ora pro nobis
Fellis suffusio
– Ora pro nobis
Phallorrhoea virulenta
– Ora pro nobis
Gutta serena
– Ora pro nobis
Angina canina
– Ora pro nobis
Lepra leontina
– Ora pro nobis
Lupus vorax
– Ora pro nobis
Tônus trismus
– Ora pro nobis
Angina pectoria
– Ora pro nobis
Et libera nobis omnia Câncer

– Amém.

III

Há 1 célula em mim que quer respirar e não pode

Há 2 células em mim que querem respirar e não podem

Há 4 células em mim que querem respirar e não podem

Há 16 células em mim que querem respirar e não podem

Há 256 células em mim que quer respirar e não podem

Há 65.536 células em mim que querem respirar e não podem

Há 4.294.967.296 células em mim que quer respirar e não podem

Há 18.446.744.073.709.551.616 células em mim que querem respirar e não podem

Há 340.282.366.920.938.463.374.607.431.768.211.456 células em mim que querem respirar e não podem.

IV

– Minha senhora, lamento muito, mas é meu dever informá-la de que seu marido é portador de um tumor maligno no fígado…
– Meu caro senhor, tenho que comunicar-lhe que sua esposa terá que operar-se de uma neoplastia do útero…
– É, infelizmente a biopsia revela um osteo-sarcoma no menino. É impossível prever…
– É a dura realidade, meu amigo. Sua mãe…
– Seu pai ainda é um homem forte, vai agüentar bem a intervenção…
– Sua avó está muito velhinha, mas nós faremos o possível…
– Veja você… E é cancerologista…
– Coitado, não tinha onde cair morto. E logo câncer…
– Há muito operário que morre de câncer. Mas câncer de pobre não tem vez…
– Era nosso melhor piloto. Mas o câncer de intestino não perdoa…
– Qual o que, meu caro, não se assuste prematuramente. Câncer não dá em deputado…
– Parece que o General está com câncer…
– Tão boa atriz… E depois, tão linda…
– Que coisa! O Governador parecia tão bem disposto…
– Se for câncer, o Presidente não termina o mandato…
– Não me diga? O Rei…
– Mentira… O Papa?…
– E atenção para a última notícia. Estamos ligados com a Interplat 666…

– DEUS ESTÁ COM CÂNCER.

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