Tadeu Lira:  tuas cores vivas que ainda vivem por aqui

Tadeu Lira: tuas cores vivas que ainda vivem por aqui

tadeu liraAlguns amigos que conhecem este MB dos tempos em que nada para ele passava em branco, era tudo em cores, sabem que a memória é uma das poucas coisas que ele cultua de verdade. Um homem sem memória é um homem sem história. Assim como um país sem história nunca será um pais, nunca.  No máximo, com a permissão do tempo, será uma fotografia na parede da memória. 

Nesses últimos anos a memória anda me beliscando para não esquecer algumas coisas e fatos e pessoas que esquecidas nunca deveriam ser. Pois não é que aconteceu comigo Somente agora, um mês e meio depois ou quase isso, soube que o bom Tadeu Lira trocou de roupa e foi morar noutra cidade. Triste, não?  Muito. Triste saber das despedidas dos amigos através de necrológios ou homenagens póstumas. Pois é, somente soube há pouco. E o pior: no jornal de ontem.

Vi a foto de Tadeu, e a memória dessa vez não me traiu. Tudo lembrado. Tudo lembrando.  Especialmente naquele dia em que ele fora expor uns quadros seus e, sem que este MB sequer desconfiasse, aproximou-se, leve como fora   nesta passageira vida, e mansamente falou um “Eu queria te pedir uma coisa…”. Se desconfiava que coisa era essa? Nem um pouco.

Sabia que o pedido a ser feito, sensato como sempre fora Tadeu por aqui, estaria “dentro do possível”. O Tadeu que eu conhecera através do meu irmão Paulo de Almeida, amigos de trabalho em A União, essa escola do jornalismo parahybano, não pediria algo que alguém,  fosse esse amigo seu ou não, não pudesse atender. O que seria que o Tadeu, conhecendo-me pouco iria pedir, sabendo que esse pedido por mim poderia ser atendido? Ato continuo, pediu-me um tempo e, antes de fazê-lo (o pedido), entrou em sua sala de trabalho.

Não esperei muito. Tudo preparado.  Então saiu de lá  com umas cincos ou seis telas pintadas por ele.  Eram muitas cores. Vida. Muita vida. Traços seguros. Não vi indecisões em suas figuras e animais. Flores, frutos e árvores. Todas típicas de um Nordeste que conhecia muito bem em suas aventuras artísticas.  Tudo que gostava de pintar. Simples, disse como se simples realmente fosse, e este MB, mas amigo da literatura, da poesia (sem ser poeta) e da música também fosse capaz de ver tudo nessa sua simplicidade.

A verdade era que Tadeu estava naquele momento me convidando para apresentar o seu trabalho, por escrito, na exposição que faria exatamente no outro dia.

-  Espera aí, meu amigo, devagar com a tua arte que essa agora me deu uma dor!  Achas que a compreensão de uma arte, seja ela plástica ou de pano acontece através de osmose?

 Ele sorriu. Eu também. És capaz, insistiu.  Aí,  parei  e ponderei.

- Mas por que logo eu?!

Era sempre assim. Tudo simples. “És capaz de falar sobre o meu trabalho”. Não foi uma insistência, mas  um pedido. Apenas. Ainda relutei. Porém, a maneira com que me pediu, se pedisse a qualquer pessoa ,  essa também não deixaria de atender o seu pedido. Tudo bem, vou tentar. Antes, porém, falas-me  um pouco do teu trabalho.   Ele falou.  Pouco, mas falou.

 Enquanto olhava as telas que ele espalhara para que os meus olhos com elas se acostumassem, falou sobre a sua – dele – criação, inspiração e transpiração. Lembro-me. Foi pouco. Mesmo assim, com o pouco que bom Tadeu ali “me ensinara”, todo satisfeito, fui à máquina de escrever (não era ainda computador) e – acreditem -, sem muito pensar, pois não precisava, escrevi o que realmente via/sentia.  O bom é que ele gostou. E muito. Eu? Também gostei. Muito? O suficiente.   

Em seguida, mostrei-lhe o escrito. Aí foi a vez de Tadeu, somente generosidade, dizer-me ser a sua arte aquilo mesmo que eu acabara de escrever. Infelizmente não tenho o escrito. Infelizmente. Mas a lembrança ficou. E por que não dizer que a sua arte também?

Resquiecat in pace, bom Tadeu, tuas cores permanecem vivas.

Em tempo: essas mal-traçadas foram “cometidas” em 07 de fevereiro de 2019.

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