“TÃO BONITINHO DE TOUCA”! E LÁ SE FOI UM MIRIM ENORME!

“TÃO BONITINHO DE TOUCA”! E LÁ SE FOI UM MIRIM ENORME!

“Qualquer idiota consegue ser jovem. É preciso muito talento para envelhecer.”

Millôr Fernandes

 

A notícia chegou logo cedinho. Mas,  somente agora, 15 dias depois de ele trocar de roupa e se mudar para outra cidade. Não deveria ser novidade. Ora, morrer é novidade? Nenhuma. E morrer velho? Também não.

 Mas, se Mirim, essa figura alegre e amiga que enfeitou por muitos anos o Ponto de Cem Réis foi quem morreu, aí sim, foi novidade. Não pelo fato de Mirim ter morrido, mas por ter vivido tanto e dignamente.

 As histórias que Mirim me contava, infelizmente, nessa corrida louca em busca de um lugar no futuro não foram por mim registradas. Ah, parece que estou vendo o velho e bom Mirim  terminando  uma gargalhada e começando outra em seguida,  depois de uma de suas histórias sempre  bem-humoradas, para  encerrar com o seu conhecido “Tão bonitinho de touca”!

 Ah, lembro-me com Mirim sabia de tudo! Tudo  ou quase tudo sobre os passantes e ficantes  no Ponto de Cem Réis!. E como sabia!   Era a história no Ponto certo!   Histórias que valiam mais que Cem Réis!

 Nunca encontrei Mirim de mau humor. Por mais dificuldades que enfrentasse, não por orgulho, mas pela altivez que carregava naquele seu andar em descompasso, uma perna mais curta que a outra, parecendo equilibrar- na linha vida, ninguém que passasse ou ali ficasse  no Ponto de Cem Réis percebia.

  Ele contava histórias que viveu como se as estivesse ainda vivendo. Era um exímio contador de histórias! E o melhor nas suas histórias era a existência de personagens reais, comuns ou não, mas que muitos conheceram . E para os poucos que não os conheciam, pela forma que ele contava, pareciam mesmo velhos amigos.

 Ah, Mirim foi um velho que conseguiu “morrer moço” mesmo depois de viver por tantos anos longe da juventude! Não sei com que idade Mirim trocou de roupa e foi morar noutra cidade. Mas, mesmo sem saber, aposto que Mirim viveu mais de mil anos! Pois Mirim sabia que a única coisa que levaria desta vida era a vida que levava!  E nunca teve  a vergonha de ser feliz!

 A sua maneira Mirim viveu o que muitos, mesmo se conseguirem passar mais tempo nesta cidade do que ele, nunca viver conseguirão. Mesmo os que não estavam acostumados a sua forma de viver, em pouco tempo passavam a sonhar ser um Mirim na vida como ele!

 Nada de rancor. A raiva de Mirim se dissipava em pouco tempo. Era sempre  cortada por uma gargalhada característica. Quando provocado soltava um sonoro palavrão e saía de perto do provocador.  Mas não demorava muito.  Longe desse,  descreveria sua – do provocador – biografia em detalhes.  Mostrava que além de conhecer o dito cujo  sabia dele mais do que muitos  dele sabiam! . Um sacana!  Pronto. Deixava pra lá.

 Ah, e como foram muitas as cervejas divididas com esse personagem que conseguia transformar quaisquer reticências num Ponto exato para   uma gargalhada!Fazia um bom tempo que não via Mirim. Um tempão! Amigo também de seus filhos, excelentes filhos e amigos, Odenilson, o “Nicinho”, e Betinho, esse que o Botafogo da Parahyba rebatizou de “Betão”, sentia prazer em reunir-me com essa divertida e íntegra família nos barezinhos, saudosos barezinhos do centro da cidade.

 E a Fava do 13 maio? Ah, essa foi por muito tempo a nossa casa e a casa  onde Mirim “quase morava” e conhecia da porta da frente ao quintal que dava para o mundo! Toda a minha solidariedade aos seus que ficaram por aqui. Tudo consumado está. Assim, vai em paz,  Mirim, tu continuas sendo grande entre os amigos; enorme para filhos e gigante para que os que conheceram a tua história!

Compartilhar...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on Twitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*


cinco × = 45

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>