Tarcísio Meira César: “foi poeta – sonhou – e amou na vida” *

Tarcísio Meira César: “foi poeta – sonhou – e amou na vida” *

Sexta-feira. Manhã de sexta- feira branca. O dia amanhece lento. Não tenho relógio na parede. Tenho um na cabeça. O outro no pulso carrego por necessidade. O tempo ainda é um grilhão dos meus desejos. Descansar. Não pensar em nada além disso. Não pensar.

Amanheço nesta sexta-feira branca lendo os poemas de Tarcisio Cesar Meira.  São poucos os que conhecem ou sequer ouviram falar nesse poeta patoense. Uma pena. Leio o pequeno livro sobre esse poeta patoense escrito pelo então vereador Jose Mota Victor. Uma plaqueta. O titulo é um achado. E nem precisou ir longe.

O titulo  da plaqueta é o belo verso de um dos seus muitos e bons poemas.  Esse dedicado a Humberto Borges.Ah, um sonhador era Tarcisio! Nada a estranhar. O poeta é um sonhador.  Fingidor também. E não se pode esquecer nesse momento o poeta e fingidor e sonhador que fora português Fernando Pessoa.

 José Mota Victor batizou a sua – dele – plaqueta com um título que o poeta com certeza leria avidamente, para em seguida beber: “O homem que gostava de conhaque”. É o título da plaqueta do então vereador e sempre escritor e teatrólogo e poeta José Mota Victor.

Poeta e teatrólogo e engenheiro por formação. E,  assim como João Cabral de Melo Neto, um “arquiteto das palavras”, guardadas as devidas proporções, Mota também é  um “engenheiro das palavras”. O texto da plaqueta é isso: uma engenharia bem feita sobre a vida desse poeta patoense. Leio.

Tarcísio não era somente poeta, pois, embora excelente profissional da palavra escrita, com atuação nos mais diversos jornais do país, filósofo, ensaísta, jornalista e professor, Tarcisio vivia mesmo a poesia e da poesia! Um boêmio que nada ficou a dever a tantos outros sonhadores deste país onde a boemia entra no poema sem pedir licença.

Na contramão da história dos poetas de outrora que morriam cedo, talvez mesmo pelo fato de ser dos nossos tempos, Tarcísio ((1941-1988) não morreu tão cedo – os poetas deveriam viver eternamente – como Álvares de Azevedo, esse com que tinha uma identificação visível e sentida logo nos primeiros sonetos (craque), nem Castro Alves, poeta onde também encontramos muitos “pedaços poéticos” seus .

 Tarcísio era um poeta que não desejava nada mais nesta vida do que ser um Don Quixote para lutar contra “moinhos de vento” que transformados em monstros pudessem ameaçar os seus poemas. Sentia inveja do cavaleiro da “triste figura”, e fazia questão de confessar: “Invejo o Don Quixote, que tinha só um amigo e um cavalo e meia légua de terra na República da Mancha. Hoje o meu roçado está reduzido a um pequeno bloco de cimento armado, com as raízes de duas centenas de livros plantados”.Um belo poema em prosa.

 “O homem que gostava de conhaque” é o tipo de leitura que se deve fazer, como assim gostaria o poeta, tomado conhaque com ele e o amigo homenageado, embora se sabendo que agora ele veste outra roupa e mora noutra cidade.

Pois é. Amanheci lendo o Tarcisio Meira apresentado que me fora pelo autor da Plaqueta que encerra o seu – do autor – discurso na sessão solene de 25 de abril de 2008, em memória dos 20 anos de morte do poeta Tarcísio Meira César Ah, mas como eu poderia encerrar esta manhã de leitura poética sem um só poema do poeta que leio ? Assim, segue o‘Soneto a si mesmo’, sua – do poeta – última peça poética, somente postumamente conhecida e divulgada, num ritmo “agostiniano – viva Augusto dos Anos! – que faz os ouvidos vibrarem a cada verso.

“ Descansaras, enfim, Tarcísio, só.
Morto nas tuas mãos o desengano.
Comediante irreal, caiu-te o pano
Que vai cobrir de escuro o próprio pó.

De nada valerão palavras vãs,
Amores fúteis, sonhos destroçados:
Teus olhos dormirão, já deslembrados
Das madrugadas, todas as manhãs.

As tuas noites, mortas, como queres,
Não mais doerão, extintas das vaidades,
Na ausência de todas as mulheres.

Não terás, quando a mágoa vier,
Molhada das mais rudes frialdades,
Turvar a flor que o corpo te colher”.

+Alvarez de Azevedo.

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2 comentários

  1. A delicadeza dos comentários de Humberto me encanta. Ele sabe como trabalhar com as palavras e é um expert em sentimentos nobres. É também um Dom Quixote que luta contra Os Moinhos de Vento. Tem também na escrita o dom do El Manco de Lepanto. Como os poetas a noite é também sua companheira fiel e inseparável.Viva a inteligência!

    Abraço do Amigo

    José Mota Victor.

    • Humberto

      Que é que isso, meu amigo, assim vou terminar “me pedindo um autografo”! Ora, o cara que é romancista, poeta e teatrólogo premiado nacionalmente falar assim desse simples “Malabarista de Palavras”, é mesmo para deixá-lo mais que satisfeito pelo amigo que tem o intelectual que lê! Alguns dizem que és “técnico” que escreves, Ó Ledo Ivo engano! Antes do técnico o escritor já existia. Não adianta: cada um para que o nasce! Putabraço, amigo, em breve estaremos por aí”

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