Tocar sino

Tocar sino

 Tocar sino não é mesmo uma profissão. Uma profissão como médico, engenheiro, advogado, carpinteiro, professor e tantas outras mais, com seu devido registro em instituição ou órgão regulador, vinculados ao Ministério do Trabalho. Tocar sino é missão do corpo, da alma, do coração e da sensibilidade, não importa a ausência de dispositivos instrumentais que a normatize junto ao mercado econômico e a suas exigências utilitárias.

Fiquei pensando nisto depois que li o artigo dominical de meu confrade Evaldo Gonçalves, recordando a sua infância na cidade de Sumé, especialmente de quando, meninote, na qualidade de acólito dos serviços missionários, fazia repicar o sino da igreja, convidando os fiéis para os rituais sagrados da Casa de Deus.

Ora, tocar sino é como fazer poemas, criar passarinhos, comer doce de alfenim, montar em cavalo baixeiro, espiar as serras cachimbando, dormir no inverno sob os acordes miúdos da goteira, acariciar o dorso avermelhado dos crepúsculos e o algodão de seda das manhãs neblinadas do Cariri. Ou, em outros termos, tocar sino é missão, é bálsamo, é oração, pequeno êxtase, prazerosa respiração…

Há coisas e práticas que não se pagam. Passam ao largo dos carimbos quantitativos e se tecem, livres e puras, enigmáticas e clarividentes, cotidianas e miraculosas, na clareira luminosa da gratuidade, preservando a perfeição de tudo aquilo que é inútil.

Pois bem: tocar sino é uma delas. Assim como uma delas é brincar com as palavras, colecionar ninharias, namorar as borboletas, carpir o perfume das rosas, construir arranjos florais no pelo das nuvens e reter, na memória afetiva, os sabores e as imagens que amamos.

Só que tocar sino é tão simétrico, é tão íntegro, é tão cheio de claridade, que culmina com os artefatos da beleza. Seja para anunciar a missa das primeiras manhãs ou antecipar, nas tardes mornas, a doce e dorida melodia da Ave Maria, percutindo, no oco do mundo, os soluços distendidos dos que já se foram.

Tocar sino é um exercício musical de uma sagração solitária e divina, principalmente se os sons ecoam pelos sossegados logradouros e praças públicas das pequeninas cidades do interior, naquele abandono típico de fim de fim de mundo. Uma cidade, por exemplo, como a Sumé, de Evaldo Gonçalves, com a eterna verdade, vazia e perfeita, do seu céu de tantos azuis límpidos e surpreendentes; ou Cabaceiras, de meu confrade Juarez Farias, com seus lajedos desolados fitando a curva acesa do infinito; ou a Água Branca, do poeta Luiz Nunes, com suas vazantes almofadadas e o mistério incontido de suas águas claras e distantes; ou Umbuzeiro, com seus baixios úmidos que apontam para a correnteza magra das águas do Paraíba, ou, ainda, Aroeiras, minha comarca das pedras, onde tantas coisas pereceram e donde brota os cardeiros ásperos e agudos de tanta saudade.

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