TODO DIA É DIA DE VIVER!

TODO DIA É DIA DE VIVER!

Acabo de chegar a minha ilha cercada de livros, filmes e discos. Tive  que dela sair.  Ver como estava à vista. Fui.  A vista paguei. A prazo seria mais caro. Duraria mais o sofrimento. Ver. Tudo ver e não calar. Pois assim nada muda. Não calo. Não fico mudo.  Voltei.  Vendo melhor. Sou não vendo a vista. Nem a honra. Nem o caráter. nem e nem. Nada vendo. Nem compro.

Passeio pelo Ponto de Cem Réis. Passei. Esse que hoje parece mais uma quadra de futebol de salão. Pausa.Nunca gostei desse “progresso”. Nunca. Não vejo esse progresso bom para a vista nem para a minha saúde. O meu bem-estar  depende também do que eu vejo. Sinto. Tudo de bom que entra pelos olhos e vai ao refúgio da alma.

 No Ponto de Cem Réis encontro o bom Ricardo Oliveira. O advogado. O Ricardão. Amigo de datas longas. Colega de profissão que vive como se o mundo ainda tivesse para ser inventado. Criado. Ricardão bem que poderia viver mais para a vida. Não parece. senti. Nenhuma surpresa. Sempre assim.

 Ricardão carrega sempre uma novidade escondida no bolso da frente. No bolso da camisa de  carne. Pele. Cor da pele que lhe cobre o corpo.  Uma novidade Ricardão trazia. Tinha certeza. Não errei.  Mas  Ricardão não mata em mim essa surpresa assim de repente.  Diz-me então como se nada estivesse a dizer: “Sabe, 1berto, acho que  estamos no  tempo de morrer…” Ah, Ricardão – tempo de morrer!

 Assim mais que de repente não entendo o “tempo de morrer” do Ricardão. Ele percebe. Não entendia. Não se fez de rogado para explicar esse não entendido meu. “Gutemberg. Sabe quem é Gutemberg? ” Sei. Sabia. Gutemberg… Saca rápido o gatilho das palavras à queima-roupa: “Pois é, ele  não mora mais aqui”. Explica. Abriu o jornal e estava lá no obituário: missa de sétimo dia para alma de Gutemberg. Foi o que me disse.

Não me admirou o fato de Gutemberg ter se mudado desta para outra cidade com apenas 59 anos.  Não me admira.  Acreditem. Nenhuma surpresa. Embora essa seja uma idade por muitos ainda  considerada “jovem, muito jovem”.  Hoje, claro.

   Ora, Ricardão,  todos iremos um dia morar na cidade para onde o apressado  Gutemberg se mudou na semana passada. Fim de papo.Ou começo. Mas isso não significa que estamos no “tempo de morre”!  Mudar-se. Trocar de roupa. Pausa. Esse eufemismo alivia a dor.

Mas por que o Ricardão disse que estamos no “tempo de morrer”? Não acho que ele, Ricardão, esteja nesse tempo. Nem eu.  Nem os meus. Acho mesmo que estou – estamos! – no “tempo de viver!” cada segundo. Sem fazer cálculos de dias ou horas. O Poetinha cantou isso.  Faz tempo. É a coisa mais divina desse mundo. Ele sabia. Viver cada segundo como nunca mais!

 Vivo assim. Vivemos. Acho – tenho achado muitas coisas nos últimos dias – que o Ricardão assim também deveria achar. Tempo de viver!  Morrer todos vamos um dia. Morremos todos os dias. Viver não!  Viver é para poucos. Infelizmente. Viver é para quem o tempo não passa de uma ideia e recria cada ideia nova de vida nesse tempo!   Esse em que temos a obrigação de ser feliz.

Não tenho tempo para morrer. Afinal, queira-se o não se queira, morremos todos os dias. A cada segundo. A cada minuto. E felizes são aqueles que morrem a cada segundo e no segundo seguinte ressuscitam. Estou entre esses. Mas  acho que infelizmente o bom Ricardão no meio desses ainda não chegou.

Infelizmente!

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