Um dia com Cristovam Tadeu e suas invenções…

Um dia com Cristovam Tadeu e suas invenções…

Impossível fugir a essa dura realidade. Era sábado. Dia dos homens vazios.  Isso segundo o Poetinha. O telefone toca, e a  notícia cai lentamente como uma pluma num dia de pouco vento.

– Sabes quem morreu?!

Era ela.

Lembro-me que naquele dia e naquela hora, eu que nunca gostei de Shopping Center, pois todo ele tem cheiro de plástico, estava exatamente em um deles.

Não sabia. Mas se não tivesse sido ela a primeira a me dar a notícia, ainda pensaria que fosse mais uma pegadinha dele. E mesmo sabendo depois que essa poderia ser verdadeira, teria morrido de rir. Ele?  Riria também. E estaria vivo.

Na última vez que o encontrei bem ali no velho Terceirão, esse “mercado persa” onde ele costumava responder presente, olhou-me de longe, como sempre fazia, levantou o indicador da mão direita  e sussurrou:

– hummmmmmm…

Sorri de longe. Ele sorriu também. Nem precisava de palavras. Não precisávamos. Mas não era “Hummm…” que ele estava dizendo nem queria dizer.  Tinha certeza. Era  1 mesmo. 1 de 1berto.

Naquele dia, poucos dias antes de trocar de roupa e se mudar para outra cidade, mostrou-me todo alegre o personagem que acabava de criar. Sempre criando.  Uma cabeça em estado de criação.  Ali mesmo, meio aos muitos que saíam e entravam, trouxe-me o seu Ariano Suassuna.

Não estava ainda “maduro”. Mas não disse assim “maduro”. Adiantou apenas que ele – o personagem –  estava se vestindo. E ,  para a sua alegria e a minha, adiantou também que o dono do personagem por ele criado, o próprio Ariano, tivera a oportunidade conhecer o seu e ficou a admirado. Pausa. Nem me lembro mais onde foi nem o que estava fazendo. Lembro-me apenas que foi ele mesmo, o filho de João Suassuna, quem o apontou para a mulher Zélia, e confidenciou:

– Esse, esse (esse foi ele, o excelente imitador de celebridades, imitando o gago “inventor” da Pedra do Reino),  esse rapaz ai é aquele  que me imita…

Sorri com a imitação.

Excelente!

Melhor ainda, lembro-me bem, quando na oportunidade também mostrou o seu Zé Ramalho.

– Sabe o que é cara, não é só imitar, mas viver o personagem! O seu  olhar, o tempo,  trejeitos, indecisões, humor… Vivê-lo de corpo e alma!

E , ali mesmo,  fez o Zé Ramalho que acabara de criar. A sua – de Zé – boca meio torta e o queixo apontando o caminho da voz grave, quase falada, parecendo anunciar que o dia do juízo final estava marcado para amanhã. Era Avôhai!  Tinha de ser.

Sorri mais ainda.

Uma boa imitação.  Talvez  muito boa.

Disse-lhe certa vez que mesmo não sendo um  cantor ou intérprete, como queiram, tinha uma boa colocação de voz. E que não desafinava como um principiante. Às vezes, porém, aqui e ali, nada mais natural, atravessava uma ou outra frase. Mas o que estava valendo mesmo era o personagem que ele conseguiu captar para a sua ótima imitação. E esse, com certeza, ele fazia muito bem.

Naquele dia, quem nos visse ali sorrindo e conversando como dois velhos e afinados amigos, nem imaginaria que anos antes, uns dois, por aí, a nossa amizade ficou estremecida apenas porque lhe sugeri melhorar os traços e se aprofundar mais nas ideias. Nem tanto nas ideias, como lhe falaria depois, mas nos traços.

Disse-lhe naquela oportunidade que poderia muito bem olhar mais os traços do Henfil, Redi, Laerte e Nani. Esses bastavam. Nada daquelas linhas cheias e bem desenhadas, por exemplo, de um Chico Caruso ou Aroeira. Esses estavam mais para desenhistas. Afinal, ele não era desenhista. Mas bom cartunista. Um Chargista bom.

Não gostou das minhas observações.  Achava que estava pronto e fim de papo. Silenciei. Também nada mais lhe disse nem ele também perguntou.

O tempo passou.  Pouco a pouco começamos a trocar algumas ideias, e nunca mais tocamos no assunto. Nem precisava. Ele realmente havia melhorado. Muito. Tanto que criou o Bartolo, um dos melhores personagens do universo humorístico do verde-amarelo. Esse de quem eu me tornei um fã.

– Vou te dar um Bartolo de presente, tamanho grande, autografado e dedicado!

Não teve tempo. Bartolo ficou e ele, apressado e brincando de morrer, se mudou para outra cidade.

Ah, mais que me dera a notícia de sua mudança? Ela!  Essa Rosa que agora me acompanha – sem pressa –  por essa vida minha nada apressada. Foi ela a primeira a me dar a notícia do trocar de roupa e mudança para outra cidade do bom Cristovam Tadeu.

– E o Bartolo?

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