Um indiano cremado em Areia

Um indiano cremado em Areia

Antes de entrar nos assuntos da conversa, como outro dia ouvi o meu bom irmão Dapenha dizer e achei arretado, apenas por curiosidade, entrei (acho melhor estar fora) na Internet e espalhei o seu nome.  A surpresa? Veio inesperadamente (risos). O seu nome é o nome  do pai que é rua em sua cidade natal, Catolé do Rocha. Tá lá no Conjunto Tancredo Neves esse que –  pelo nome –  deve ser um “pouquinho” mais novo do que ele(risos). O seu – dele – nome? Jose Cidalino de Almeida, o filho.

Agora contado um pouco sobre o bom contador de história que ele é,  dono ainda de um repertório somente sorriso  de boas e rápidas  piadas – as que não são rápidas, geralmente não são boas – , em poucas palavras, num parágrafo apenas, tentarei explicar o motivo que levou estes dedos malabaristas à academia das letras do meu notebook:   a   cremação do corpo de um professor indiano que “professorava” na cidade do mestre do romance moderno, José Américo de Almeida, Areia, narrada por ele, isto é, por José Cidalino. E que narração!

Enquanto ele narrava, enfocando detalhes, imaginei, para os bons areienses, a estranha   cena da cremação.  Um corpo na sala ou próxima a essa, queimando, a família ao lado,  a chegada dos familiares diretamente da Índia, o irmão do morto e cunhado da viúva de  um metro por dois,  isto é,  um metro de altura por dois  de largura, chamado às pressas para substituir o marido na relação entre os dois, e aquele clima de “tudo muito natural” com que eles enfrentam a Indesejada das gentes. Estranha e quase tétrica a cena.

A descrição do fedor – quase escrevia “cheiro” – de carne humana incensando toda cidade e a população, justamente incomodada, provocando a justiça para evitar aquele “churrasco” de carne humana não me saem da cabeça.  Mas não conseguiram evitar. A laicidade do país do carnaval foi o “habeas-corpus” para a família. Ou melhor: toma o teu corpo, ele é de vocês, façam o que dele vocês quiserem. E fizeram. Ali, na vista para todos que desejassem assistir àquela cerimônia  que deixava no ar um “cheirinho” indesejável – nunca senti, confesso. – de carne humana, um corpo queimou até as cinzas.

O amigo Cidalino, como o chamo e muitos chamam de Buda, não me contou se a viúva oferecida ao cunhado, naquela oportunidade, usava um sari típico de sua – dos indianos – gente. Também se cantava, como acontece nessas ocasiões, na Índia, aquela canção que mais parece um mantra, onde o “Deus é verdade” é cantado aos quase gritos, até as vozes pedirem silêncio.

Uma certeza, porém, para os meus dois leitores que não ouviram/viram a narração do bom Cidalino, podem ter: tão boa foi a narração que se vê/ouve em cores e – claro – ao vivo.  Ouvindo-a e vendo-a (sic) assim, espera-se que a deusa Ganga emerja das águas (sic de novo) do Rio Ganges e leve as cinzas do finado.

Sei não, sei não… sei não mesmo! Mas a imagem da mulher de  um metro de altura por dois  de largura, o cunhado oferecido como o próximo marido e o corpo do indiano de nome  impronunciável  que ele tentou  lembrar, mas lembrou apenas  algo parecido com Kuziparambilprakarazan, um nome difícil prakara…zan!,  voltando ao pó pela força do fogo, ainda continuam nesta cabeça -desculpem  a falta de modéstia – pensante. E Cidalino, pela vez dele, pode se considerar um ótimo pensador e narrador de histórias que, não fosse a sua boa memória e ótima interpretação, perder-se-iam (gostei) nas vielas do esquecimento.

Que imagem!

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