VANDRÉ FAZ HOJE 80 ANOS! VIVA GERALDO! PARABÉNS!

VANDRÉ FAZ HOJE 80 ANOS! VIVA GERALDO! PARABÉNS!


SE VANDRÉ ESPERA SUA JANGADA VOAR, EU DESARRANHO MEU CARRO!*

 

Sou o tipo de leitor que em tudo mete os olhos e pesca, no fundo deles, o que melhor lhe convém. Aos olhos não, ao dono deles. Nesse momento, o carro arranhado na oficina, resultado de uma arranhada provocada por um carro de um sujeito que nada sofreu, uma vez que do seu anonimato não saiu, tenho em mãos uma velha revista em que o eterno insatisfeito Geraldo Vandré solta os seus cachorros, muitos não vacinados, contra tudo e todos os que o rodeiam. Respeito sua insatisfação. Não respeito, algumas vezes, as minhas.

Para início de conversa, ou de entrevista, como queiram, por incrível que possa parecer a velha revista não traz o nome do entrevistador. Na apresentação do entrevistado, Vandré descrito como um sujeito que, morrendo de medo de ser torturado, fugiu para o Chile, França, Argélia, Alemanha, Áustria, Grécia e Bulgária. Pensem num sujeito viajado; num sujeito indo e voltando. Esqueceu, porém, de ressaltar que, por isso mesmo, apesar dos muitos em contrário, o filho do Doutor José Vandregísilo e de Dona. Maria Eugênia nunca foi torturado.

Enquanto o carro era desarranhado, eu lia, sorrisos nos lábios, mais uma história desse sujeito que assim como Edson Arantes do Nascimento criou o Pelé, ele, o Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, criou o Vandré mais inteligente e perna-de-pau no futebol. A entrevista, para começo de sorriso, foi concedida no Clube de Aeronáutica, no Rio de Janeiro.

Mas o sorriso descrito nas mal-traçadas, para que um mais atilado não veja nele outro sentido, aviso que saiu ao imaginar a surpresa do entrevistado ao encontrar, justamente nesse local, a nossa referência na “composição de protesto” bem acomodada no Terceiro Comando da Aeronáutica e diante de alguns exemplares de revistas de aviação e Ana Maria. E se eu disser que Vandré ostentava um brilhante distintivo da Aeronáutica no peito, um dos meus dois leitores acreditará? Pois acredite. Ostentava, sim.

Pouco a pouco, o carro vai sendo desarranhado. A leitura é gostosa. É livre, é leve e sem tortura. Vandré é apresentado como se estivesse ali, ao lado do mecânico desarranhador, longe daquele ar pesado que carrega no rosto desenhado pelo tempo. “Vim para a comemoração da Semana da Asa”. Um voador, diriam os que não conhecem o compositor de Fabiana, uma declaração explícita ao “pelotão de asas”. E, para minha surpresa, o entrevistador sem nome consegue flagrar um momento raro na vida do senhor insatisfação: uma risada. Difícil imaginar um sorriso cortando aquele rosto pétreo.

A leitura e carro desarranhado estão chegando ao fim. A contracapa do seu disco Hora de Lutar é lembrada. O que estaria querendo dizer com o “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, citando Camões? Depois de perguntar se o entrevistador ganharia dinheiro com as suas declarações, ou dono do jornal, em especial, sucintamente, revela o porquê da citação. “Mudamos, eu e o Brasil. O passado e o futuro”. É o que eu digo: a jangada aprende a voar”. A citação final não é coisa de Camões. Está mais para o Dorival Caymmi”. A jangada aprende a voar”.

Fosse eu, uma prática que trago desde os meus tempos de escola primária de Dona Milu, na minha Rua Senhor dos (todos os meus) Passos, estaria insatisfeito com a resposta. Por que jangada aprende a voar? Ele, talvez, sucinto como sempre, responderia que se neste país até boi voador existe, por que não jangada? O desarranhado está no fim. O meu sorriso, porém, apenas começando. O caso é sério. O insatisfeito fala de sua paixão – voar. Até a sua coqueluche foi curada com voos. Amenidades. O Brasil é um país selvagem e capitalista.

Pronto, concluo, descobriu a pólvora. Nasceu médico, tornou-se advogado, mas no fundo é um aviador. Não discuto. O carro foi desarranhado. É hora de voar… Ou seria de lutar. Enfim, deixo a oficina com o carro dessarahado, bonito, e um sorriso gostoso arranhando o rosto.

 

*Do Livro ” O que me restou do silêncio…”

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