Zé com fome

Dom Cardoso

Zé com fome, Zé da Zilda ou José Gonçalves – Um grande compositor desconhecido.

JOSÉ GONÇALVES, nome artístico Zé com fome ou também Zé da Zilda, nasceu no subúrbio de Campo Grande, no estado do Rio de Janeiro em 6 de janeiro de 1908. Filho de músico, aos cinco anos começou a aprender cavaquinho com o pai, passando mais tarde a acompanhar-se no violão. Antes de torna-se cantor e compositor profissional, trabalhou como bombeiro-hidráulico. Morou no morro da Mangueira desde de infância onde conviveu com o futuro compositor Cartola. Integrou a ala de compositores da mangueira, compondo vários sambas de terreiro em parceria com Cartola e Carlos Cachaça.

No início da carreira, integrou a Companhia Teatral Casa de Caboclo, do bailarino Duque, to- cando cavaquinho e violão, cantando emboladas e sambas. Ficou muito tempo conhecido pelo nome artístico de Zé com fome, uns afirmam que foi por conta do seu hábito de esconder enormes quantidades de comida das festas de seus amigos no estojo do seu violão, outros contam que foi pelo personagem que interpretava para a companhia teatral.

Foi convidado pelo bailarino Duque a ingressar na Rádio Educadora, na qual trabalhou formando dupla com Claudionor Cruz. Mas tarde, como chefe de um regional e com programa próprio, passou para a Rádio Transmissora, na qual conheceu a cantora Zilda Gonçalves, que por essa época fazia sua estreia e com quem formou a Dupla da Harmonia.

Em 1936, compôs o samba “Não quero mais” (José Gonçalves e Carlos Cachaça), foi cantado com grande sucesso pela Estação Primeira de Mangueira e gravado na RCA Victor por Aracy de Almeida, sendo esta sua primeira composição gravada. Em 1937, compôs o choro “Devo e não nego” (José Gonçalves e Dirigan Gonçalves), foi gravado pela dupla sertaneja Alvarenga e Ranchinho na RCA Victor, e ainda o maracatu “Eu sou do forte” gravado por Laís Marival na gravadora Columbia.

Em 1938, casou-se com Zilda Gonçalves. O casal manteve a Dupla Harmonia e passou a atuar na Rádio Clube Brasil. Neste mesmo ano, Orlando Silva gravou “Meu pranto ninguém vê” (José Gonçalves e Ataulfo Alves), ainda em 1938, gravou como crooner do Conjunto Regional do Donga a toada-brasileira “Corta jaca” (Chiquinha Gonzaga), e o samba “Pelo telefone” (Donga e Mauro de Almeida).

Em 1939, a Dupla da Harmonia passou a atuar no programa de Paulo Roberto na Rádio Cruzeiro do Sul, passando a ser chamada de Zé da Zilda e Zilda do Zé, nome dado pelo próprio apresentador e adotado inicialmente pela dupla, que o usou em apresentações nos shows e em circos. Ainda em 1939, gravou sozinho os sambas “Antonieta” (Alzira Medeiros e Zilda Fernandes), e “Virgulina” (Antenor Borges), além do maxixe “Escravo do samba (Antenor Borges e René Bittencourt).

Em 1940, a convite do maestro Villa-Lobos, participou juntamente com outras personalidades da música brasileira como Cartola, Pixinguinha, João da Baiana, Jararaca, Zé Espinguela, Donga e Luiz Americano, da gravação dos discos de Leopoldo Stokowski, registrados no navio Uruguai. Esses discos foram editados pela gravadora Columbia nos Estados Unidos da América. Na ocasião foram registrados seu samba-de-breque “Festa encrencada” e seu maxixe “Bole-bole”, ambos compostos em parceria com Zilda Gonçalves.

No ano de 1930, Zé com fome compôs um belíssimo samba-canção “Não quero mais amar a ninguém”, em parceria com outros grandes integrantes da Mangueira, Cartola e Carlos Cachaça. Outro grande samba da autoria de Zé da Zilda e Marino Pinto “Aos pés da cruz”, antológica gravação, sucesso monumental na bela e incomparável voz de Orlando Silva, gravado no dia 15 de janeiro, do ano de 1942, lançada em março do mesmo ano. No acompanhamento, a orquestra do maestro Passos.

Último grande sucesso de Orlando Silva na gravadora RCA Victor. A canção aborda o tema da jura descumprida, muito explorado na época. Esse samba agradou tanto que recebeu imediata continuação na canção “Quem mente perde a razão” de autoria do próprio Zé da Zilda (José Gonçalves), e gravado por Nelson Gonçalves, tido como sucessor do grande Orlando Silva.

Coautor de “Aos pés da cruz”, Marino Pinto cita na segunda parte o célebre aforismo “O coração tem razões que a própria razão desconhece”, do físico, matemático, filósofo e teólogo francês Blaise Pascal (1623-1662) nasceu em Clemont-Ferrand, França, dia 19 de junho de 1923.

Numa demonstração de sua admiração por Orlando Silva, João Gilberto regravaria este samba em seu primeiro LP, em 1959, que é o divisor da bossa nova. A interpretação de João Gilberto nesse samba, é bastante intimista, na sua maneira de cantar inaugurado por Noel Rosa e Mário Reis nos anos 30.

Sua versão, com outras harmonias e uma interpretação lisa, mostraria como composições antigas poderiam ser perfeitamente amoldadas à bossa nova. Assim é que o repertório desse disco (Chega de saudade) mistura, em completa sintonia, canções nascidas sob o signo do novo movimento (bossa nova) com sambas tradicionais como “Morena boca de ouro” e “Aos pés cruz”.

Continuemos no samba belíssimo de Zé da Zilda (José Gonçalves e Marino Pinto) – “Aos pés da cruz” – continuou fazendo um magnífico sucesso, provando entre outras coisas que grandes músicas se mantém através dos tempos, independentemente do modismo. Mas sem sombra de dúvidas, a versão bossa novista de João Gilberto foi fundamental para a permanência de “Aos pés da cruz” se tornar marca registrada na música popular brasileira.

Faleceu no dia 10 de outubro de 1954 precocemente aos 46 anos de idade, vítima de um derrame cerebral. Por ocasião de seu falecimento, assim reportou-se o jornal O Globo no dia seguinte: “Da manhã de sexta à manhã de sábado perduraram as esperanças de que o derrame cerebral se tornasse frustrado e os médicos devolvessem aos ouvidos do povo a voz do seu cantor. Mas às 11:20m de anteontem entrou em luto o samba nacional ao confirmarsse a notícia triste: faleceu Zé da Zilda, que na linguagem musical proclamava que “O mundo inteiro não valia o seu lar”, e que tornara amarguras da vida carioca em reclamação melodiosa no sucesso “Saca -rolha”, do último carnaval. Contava ele com apenas 46 anos de idade”.

Em 1955, Zé da Zilda recebe homenagem da sua esposa Zilda Gonçalves com duas composições de sua autoria, ainda inéditas, foram lançadas a marcha “As águas continuam”, com Zilda Gonçalves e Rubens Campos, e o samba “Vai que depois eu vou”, com Zilda Gonçalves, Adolfo Macedo e Airton Borges. Esse último por sinal foi um grande sucesso. Mas tarde, com os mesmo parceiros, Zilda Gonçalves compôs “Vem me buscar”, em homenagem ao marido morto. Em 1973, Paulinho da Viola incluiu a canção “Não quero mais amar ninguém” no LP “Nervos de aço”, lançado pela gravadora Odeon. No ano de 1975, várias músicas de autoria de Zé da Zilda, foram regravadas por Jorge “Veiga no LP “O melhor de Jorge Veiga” pela Copacabana.

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