ZICA BERGAMI: A LUZ DO LAMPIÃO DE GÁS DE INEZITA BARROSO

ZICA BERGAMI: A LUZ DO LAMPIÃO DE GÁS DE INEZITA BARROSO

(EDMUNDO LEITE E BIA RODRIGUES)

Composta por Zica em 1957, a valsinha saudosa foi gravada por Inezita Barroso no ano seguinte

Morreu no último sábado (19/04/2011(em São Paulo, aos 97 anos, a compositora e artista plástica Zica Bergami, autora de uma das mais belas canções brasileiras, a nostálgica “Lampião de Gás”.

 Composta por Zica em 1957, a valsinha que cantava as saudades de uma São Paulo que ficou para trás com a modernização e o crescimento da metrópole virou sucesso nacional ao ser gravada por  Inezita Barroso no ano seguinte. Desde então, foi regravada por inúmeros artistas. Mesmo com seu incontestável DNA paulistano, a canção se tornou um ícone da música caipira. O incentivo para procurar Inezita e gravar a música veio do poeta Guilherme de Almeida. Compôs mais de 30 canções.

 Começando já com o refrão que a tornou inesquecível, “Lampião de gás, lampião de gás, quantas saudades você me trás…” a letra e melodia escritas por Zica descreve lugares, cenas e personagens de um centro da cidade ainda bucólico. Um endereço conhecido do Bom Retiro chega a ser citado no meio da canção, quando  a letra fala “do sabugueiro grande e cheiroso, lá do quintal da rua da Graça.” A rua foi seu endereço a partir dos cinco anos de idade.

 Brinquedos e cirandas infantis, guloseimas de uma “vovozinha muito branquinha” e até uma provável paixão – platônica? – vão compondo um turbilhão melancólico de imagens queridas por todos. Mas nada supera a força poética da simples descrição do antigo sistema de iluminação da cidade:  “Minha São Paulo, calma e serena, que era pequena mas grande demais, agora cresceu, mas tudo morreu, lampião de gás, que saudades me traz.”

 O saudosismo, a melancolia e a nostalgia seriam a principal matéria-prima da obra de Zica Bergami. Em outra pérola de seu cancioneiro Zica fala da saudade de um velho imigrante italiano que vendia batata doce pelas ruas da cidade, fazendo a alegria das crianças: “As três horas passava o batateiro, subindo a rua, cantando o dia inteiro. E eu corria com toda meninada para comprar batata doce assada. E o velhote sempre dizia que estava muito boa a batata que vendia… Ai que saudades do velho napolitano, que pelas ruas passava apregoando: ‘patata assata o furno…”

 Nascida na cidade de Ibitinga, no Interior do Estado, em 10 de agosto de 1913, Elisa Campiotti, nome de batismo de Zica, mudou-se para a capital aos 8 meses de idade. Filha dos italianos Primo Campiotti e de Ítala Olímpia Trombelli Campiotti, passou a estudar música já adulta, em 1938, incentivada pelo marido, o advogado Virgílio Bergami Filho, que a presenteou com um piano.

 Com a mesma despretensão que começou a compor, passou a pintar. Recebeu o conselho de comprar nanquim e papel de desenho, após Ernestina Karmann ver um prato pintado por ela em 1960. Seus quadros de desenhos primitivos foram expostos no Brasil – pela primeira vez em uma exposição individual em 1965 – França, Portugal, Itália, Holanda, entre outros países. Alguns deles foram expostos também na Mostra Brasil 500 anos. Zica ganhou sete medalhas individuais por seus trabalhos no Brasil (ao todo foram 14) e outras premiações coletivas, inclusive internacionais. Em entrevista ao Museu da Pessoa, disse desconsiderar as medalhas de outros países por não saber se as recebeu por merecimento.

 “Minha mãe nunca teve a pretensão de ganhar dinheiro com suas músicas e seus quadros. Fazia ambos por prazer”, contou Sylvia Ferraz, única filha de dona Zica.

 As canções da compositora estão reunidas em dois discos: “Zezé Freitas interpreta Zica Bergami”, gravado em 1999, e “Zica Bergami – Salada de Danças”, de 2000.

 

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