LIVARDO ALVES (ENTREVISTA): “uma escola de samba só de brancos ?
genial caricatura de william medeiros

LIVARDO ALVES (ENTREVISTA): “uma escola de samba só de brancos ?

Livardo Alves era capaz de compor em vários ritmos e estilos e sair bem em todos. Era um samba, uma marcha, um baião. Não era um artista, como mesmo disse, de ficar esperando o “santo baixar”. Toda hora, em todos os lugares, a cabeça de Livardo era uma fábrica musical. Vinha tudo pronto. Letra e música. O estilo livardesco, inconfundível, sempre estava presente. E esse, claro, ele sabia: era o salário!

@ A tua música é feita com espontaneidade. O começo foi o “Buraco do Bombeiro”. E depois?

- Ora, Humberto, foram muitas! Tantas que esqueci algumas! O Buraco do Bombeiro só ficou na memória pela sua história. Sim, e pela história do compositor. Eu achava o maior barato passar na rua e ser apontado como “foi aquele o menino que fez o Buraco do Bombeiro! Era a realização! Imaginas – eu, um artista! Era uma festa! (torna-se todo exclamativo). Depois daí, outros “buracos” foram surgindo. Tudo para mim passou a ser um buraco. Mas que fique claro que o Buraco do Bombeiro nunca teve nada a ver com o Buraco da Vida, ou melhor, com a Vida é um Buraco. O buraco sempre estava no meio (pausa). No meio não, o buraco era mais embaixo (risos).

@ Uma constatação: já naqueles tempos estava provado que andavas preocupado demais com os buracos das ruas e da tua vida

- (Risos). Era mesmo! O buraco sempre me preocupou. Mas acho que se fosse hoje essa preocupação seria bem menor. A verdade é que naqueles tempos os buracos eram muitos. Hoje, não, Humberto. Quase todas as ruas dos bairros se não são asfaltadas, pelo menos calçadas estão!

@ Tudo bem. Aceito a explicação para os buracos. Mas esse foi mesmo o começo de tudo?

- É… Posso afirmar que foi. Embora como te falei, fiz outras coisas antes. (Pára, dá mais um trago no cigarro que não largara um só momento, e pensa um pouco). Ah, lembrei! Há muitos anos eu fiz uma música para o bairro de Jaguaribe (bairro onde nasceu) que batizei de Parabéns Jaguaribe.

@ Eu não sabia! Contas então a história dessa tua homenagem.

Parabéns Jaguaribe foi inspirada numa briga entre escolas de samba do bairro. Na época a Escola de Samba Noel Rosa (uma das que ajudou a fundar) enfrentava um sério problema com alguns dissidentes. Eles queriam deixar a escola para fundar outra. Criar a própria escola. Agora veja que absurdo: a escola que os dissidentes pretendiam criar era exclusiva de brancos! Isso mesmo (balança a cabeça em desaprovação), uma escola onde somente brancos poderiam desfilar! Uma babaquice maior estava para ver! Uma escola de samba sem preto! Fosse preto não dançava! (estava mais uma vez exclamativo). E o mais interessante, faço a questão de lembrar bem, é que naquela época eu era apenas um menino, uma simples criança, mas já tinha consciência desse problema racial! Então foi aí que resolvi fazer uma música que dizia assim (canta): “Parabéns, Jaguaribe, parabéns/Jaguaribe agora despertou/Sua escola esse ano desfilou/Avante, avante, turma boa/Você acordou bem cedinho/Deixa a má língua falar/Quem fala está com despeito/É inútil, não pode dar jeito/Mistura preto com preto/Jaguaribe não pode ter preconceito/Veja só que invenção desse rapaz/Com preconceito a minha escola não sai”. Agora veja bem, bicho, aquela época, final dos anos cinqüenta, o preconceito era mais forte do que alguém hoje pode imaginar!  Menino ainda eu tinha essa preocupação de demonstrar no meu trabalho a minha indignação pelo fato! Eu colocava tudo isso em minha música!

@ Tudo bem. Então quer dizer que isto foi muito antes de A Vida é um Buraco. Mas, sendo um compositor sabidamente criativo e identificado com as coisas desta cidade, do nosso carnaval, nunca pensaste em fazer, por exemplo, como fizera o Lamartine Babo que compôs belos hinos para as equipes de futebol do Rio de Janeiro, músicas para os nossos clubes carnavalescos como Dona Emília, União em Folia, Piratas de Jaguaribe, Bandeirantes de Torre e outros?

- Sabe… (pára, dá outro beijo no cigarro, e continua pensativo.) Na verdade é uma coisa que ainda penso. De vez em quando esse saudosismo quase me mata. São muitas e belas as lembranças que guardo desses blocos. Os Piratas de Zumba (obs: Zumba é o presidente dos Piratas de Jaguaribe. Ele associava os nomes dos presidentes aos respectivos clubes), União de Costeira, Filipéia de Venelipe Joaquim de Almeida (faz questão falar o nome completo). Ah, esse tem uma história super engraçada e que não me canso de contar!

@ Se não cansas, então contas aí pra gente ouvir (continua).

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