O estilo era o salário de Barreto Neto

Barretinho, como carinhosamente era chamado pelos mais próximos, agora sem o peso da roupa de carne e osso, era dono do mais limpo e correto texto jornalístico da Província das Acácias. Lembro às vezes que me flagrei, brincadeira entre mestre e aluno, procurando uma palavra que melhor substituísse aquela usada por ele em um de seus intocáveis artigos. Tudo debalde.  Era perder o trem das palavras e das frases perfeitas. Mais um Ledo Ivo engano. Os textos de Barreto despertavam no leitor o prazer da leitura. E toda leitura, pelo menos para este escriba, tem de ser prazerosa.

Está mesmo é faltando em nossos críticos e cronistas a simplicidade que pautava os escritos de Barreto Neto. Escrever fácil é difícil. E  Barreto escrevia fácil. Isso mesmo: ecrever fácil como Barreto escrevia é difícil.

Outra boa e risível lembrança vem daquele dia em que um dos nossos intelectuais de textos considerados difíceis, chatos, fez com que o erudito Barreto Neto se achasse “velho e burro”. O intelectual, confessou, estava cada vez mais “profundo e difícil”. Sorrimos juntos. Um intelectual ininteligível e um Barreto velho e burro.

A característica maior do estilo Barreto, e todos os que tiveram a felicidade de ler as suas bem-traçadas publicadas nos mais diversos jornais da imprensa provinciana puderam comprovar, era a simplicidade. Barreto nunca complicava. Se queria escrever que o rei estava nu e com a sua – dele, do rei – bunda cheirando mal, nunca escrevia que ele andava mal vestido e exalando um cheiro desconhecido pelos súditos.

O tempo passou e, convidado por Barreto, escrevi em quase todos os jornais pelos quais Barreto (sic) passou.

– Véio, vamos pra lá… Pagam uma besteira. Mas as tuas escritas casam bem com a BA!

E acabava aceitando por causa dele. Para aprender. Ler suas coisas. Ouvir certeiras opiniões.

-Véio, tu não acha (embora conhecendo a língua, como poucos gostava desse falar Zé da Silva) melhor cortar aqui?

Não tinha de achar. Se achava, encontrou primeiro, que cortasse. E por que não agradecer, uma vez que nunca houve de sua parte qualquer intenção de censura, pelo corte? Tinha razão. Depois de publicado, este malabarista de palavras veria que, sem o corte, o texto acabaria numa hemorragia de palavras.

Em um dos nossos últimos encontros, ele na velha roupa de carne e osso, eu mais gordo e mais velho, mais carne do que osso, se a memória não me falha, indo para a Unimed, onde, se a memória não continua falhando, trabalhava, doido para assistir a uma “coisa nova”, o crítico recomendou: “Véio, dá uma olhada no filme do Nicholas Ray, o Jonnhy guitar”. “Um filme de 1954?, obtemperei, uma coisa nova?”. Barretinho estava coberto de razão. Mais uma vez acertara. O filme de Ray Nicholas será uma “coisa nova” ainda por muito tempo. Ele via o que muitos dos nossos críticos, apesar dos constantes exames de vista, não viam. E, se não via tudo, via o que os outros, ainda hoje, não veem. Os meus sinceros agradecimentos. O escriba bem que poderia ter aprendido mais.

Que a terra lhe seja leve como o  papel

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