Um copo na mão e nenhuma ideia na cabeça

Um copo na mão e nenhuma ideia na cabeça

Só sei que foi assim.

copo de cachaça

 

A quarentena nem tinha começado direito. Pausa. Nem errado. Pra que mentir?  Sair só por uma extrema necessidade. Apregoavam. Apregoam. E estão certo. Errados são os que assim não saem. Por extrema necessidade.  

Na verdade “ficar em casa” é uma boa para este MB. Desde que ele esteja em paz. Tudo em paz esteja.  Nada de quarentena forçada por um vírus tamanho de nada e cheio de pontas. Desses que parecem ter nascido nessa vizinha cidade. Portanto, diga ao vírus que fico.

Tive que sair nesse dia. Extrema necessidade. Estranho trampolim.  Desse vez não foi para comprar o que precisava. Saí para botar pra fora aquilo que necessidade não tinha. Por aí. Talvez ainda espalhar os olhos no mesmo espaço com o olhar de quem acha sempre um espaço novo para ele.  E achei. Nada permanece intacto. Tudo flui.

Agora ele estava ali. Um copo na mão e nenhum ideia na cabeça.  Mas convenhamos que não era tão manhã assim. Umas nove horas. Isso.  Tinha um copo na mão e umas doses na cabeça. Não muitas. Sentia pelo olhar sóbrio e a segurança dos pés no chão.

Não me viu. Dentro do meu alazão vermelho com cascos de borracha tudo eu via e calado ficava. Não fazia de conta que era ou estava mudo. Não faço esse tipo de conta nem mudo sou. Falo.  E quando me calo escrevo.

Tinha o olhar distante e o copo perto da boca. Se estava feliz? Um copo de cachaça não é motivo para ser feliz.  Embora a felicidade não precise de motivo para ser feliz.   Somente sei que estava distante. Mentalmente.   O importante era estar perto do copo. Mas era o copo, dançando na sua mão como se fosse um boneco de ventríloquo, controlado pelos seus dedos de linha, que parecia dele não querer se afastar.

Tudo estava no seu lugar. E de dentro do meu alazão, ele parado, um copo na mão e o olhar distante, cavalgava no silêncio dessa manhã. Silêncio ouvido e sentido. Mas, não resistindo, capturei esse momento para, em seguida, o libertar dessa prisão.

Era quinta-feira.

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