UM CRÔNICA MOLHADA NUMA SEGUNDA  MAIOR DE CHUVA…

UM CRÔNICA MOLHADA NUMA SEGUNDA MAIOR DE CHUVA…

Chove lá fora. 

mais comum que se começar uma tentativa de “crônica molhada” assim. Chove lá fora. A constatação é feita para em seguida avisar que dentro do peito tem um sol que não tem mais tamanho. Mas não queria começar essa tentativa de crônica molhada assim, falando na chuva que cai lá fora e lembrar o sol que não tem mais tamanho que carrego dentro do peito.

A chuva não me traz a lembrança que eu gostaria para ilustrar essa tentativa de crônica. Paro, olho a chuva que cai e nenhuma lembrança molhada ou enxuta encontro nas entrelinhas destas mal-traçadas. Tento e invento, faço uma frase diferente. Mas tudo acaba em água. Lembro nesse instante o meu rio Jaguaribe cheio até aqui sem mágoa. Não acho que ele ainda está magoado por ter “assassinado” os três filhos de Penha. Nem eu com ele. Ninguém. Ele não queria.

A chuva não me traz outras lembranças, e o meu Jaguaribe nem uma dessas me traz. Mas, se traz, traz apenas para ir me levando nas suas águas frias e hoje sujas águas da minha infância. Pausa. Não queria falar “sujas”, mas também não poderia ser contra o que todos veem e poucos sentem.  Nadar contra a corrente do meu Jaguaribe? Nunca! O meu rio Jaguaribe morreu, e ninguém pensou em sepultá-lo de uma vez por todas,  tirá-lo do seu leito e carregá-lo numa rede pelas ruas do meu bairro Jaguaribe.

A chuva que cai não coloca no rosto deste sujeito imperfeito e Projeto de Deus que não certo o sorriso do menino-jaguaribe, tomando banho na biqueira do chalezinho da Rua Senhor dos Passos, passos… passo. Ah, e os pássaros? Estão silenciosos.  Uns até mais que os outros. Esses nem piam.  Pássaros não gostam de cantar na chuva. Nem dançar.

Olho para o alto e não vejo um só a cortar com as suas asas macias, navalhas de penas, o espaço molhado da minha rua.  Nenhum que dê um pio e mostre para este pobre sujeito que ainda hoje voa nas asas da minha imaginação, que tudo não passa de um simples ponto de vista. Os pássaros também cantam silenciosamente.  Entre eles, esses que se entendem muito bem nessa língua que os homens estão desaprendo a falar, o silêncio, o silêncio cúmplice, o “passarês” que faça sol ou chuva nunca deixa de existir!

Tem mais: os pássaros não temem o silêncio como os homens.  Esses não suportam, por exemplo, mais de cinco minutos de silêncio entre eles. Silenciou por que, algum problema? Perguntam morrendo de medo, quando o papo entre eles dá um tempo para o silêncio. Os pássaros que não cantam com a chuva, estão sempre cantando e bem acompanhados por ela.

Hoje não estou a olhar o mar, não preciso. O mar veio a mim em forma de chuva. Um mar de água doce. Eu gosto do mar. Mas não acho doce, como o Caymmi, morrer no mar. Nunca, Doce é nunca morrer, viver na memória de alguém. Com ou sem chuva.

Chove lá fora

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